Aqui está um exemplo real de um proprietário, que descreve a mais realista “história” sobre o lado engraçado, trabalhoso e o feliz convívio com seu cão “Marly,” Citando é claro, o requisito ao adestrador “Valdir Alves” para educar o seu cãozinho, apenas por precauções visivelmente vista por ele e sua mulher, já que o cãozinho “Marly” era apenas um serzinho em fase de adaptação na vida dessas atenciosas pessoas que o adotaram:
EU NÃO SOU CACHORRO, NÃO!
Armênio Brandão não é o que se pode chamar de amante dos animais. Não chega a sair de casa para atropelar gatos de rua depois do jantar, nem passa suas manhãs de domingo de estilingue na mão alvejando pássaros coloridos e fofinhos. Mas não acredita que a convivência com animais domésticos faça da pessoa um ser humano mais sensível. Para isso prefere ler um livro, ver um filme ou, em caso extremo, assistir a uma peça de teatro. Sim, Armênio teria mais prazer no escuro de um teatro do que limpando o cocô de uma gaiola de papagaio. Principalmente se a sala for bem escura e seu assento bem lá no fundo, onde os atores não o ouçam roncar.
Durante toda sua vida escapou de ter de cuidar de bichos. Na infância, seu irmão mais novo se encarregava de dar milho às galinhas e recolher os ovos. No quintal de casa, um vira-lata perambulava independente, se alimentando de restos de refeições e de achados garimpados no lixo. Quando fedia muito, Luthor recebia um balde d’água de seu pai e em seguida se secava rolando no terreno. Desde que foi morar sozinho jamais teve um animal de estimação. Uma namorada passou a se aninhar no exíguo conjugado da praça da Bandeira, mas logo se livrou dela como um morador faz com o gato deixado pelo antigo inquilino. Levou-a para passear numa praia distante e a abandonou sem dinheiro para a passagem de volta.
Armênio trabalhava duro numa pequena firma de comércio exterior. Começou como Office boy, dois anos depois foi promovido a representante comercial, responsável direto pela compra das mercadorias chinesas e coreanas no Paraguai. Progrediu rápido na empresa, pois tinha um bom fôlego e conseguia atravessar a fronteira a nado com uma caixa de bugigangas amarrada nas costas, evitando assim o esquema corrupto da guarda aduaneira de ambos os países. O lucro de suas bem sucedidas operações chamou a atenção dos sócios, que lhe propuseram uma participação nos lucros da empresa. A vida sorriu para Armênio Brandão.
E não só a vida. Conceição também lhe sorriu certa vez que fora ao galpão da firma retirar as mercadorias para venda no varejo. Armênio retribuiu-lhe o sorriso. Não ligou para os comentários maldosos e preconceituosos dos colegas e acabou se envolvendo com Conceição. Qual o problema, afinal, de se ter um caso com uma moçinha que possui uma banca de camelô na Tijuca? Problema nenhum, dizia Perilo, gerente de vendas e seu melhor amigo. Acontece que o sufixo “inha” não se aplicava à Conceição, que beirava os oitenta quilos. Ela também não era dona de nada, apenas trabalhava como funcionária terceirizada da banquinha de rua, que, aliás, nem ficava na Tijuca e sim no Rio Comprido, quase embaixo do viaduto Paulo de Frontin. Mas o amor é cego e não exige nota fiscal. Armênio e Conceição se casaram e foram morar numa simpática vila do Grajaú, de fundos para os tiroteios da favela da Borda do Mato.
A falta de segurança na vizinhança convidava à reclusão. O sofá da sala era pequeno demais para o casal – Conceição sentada comportadinha ocupava os dois lugares mais uma parte do braço. O jeito era passar o tempo livre na cama mesmo, o único lugar em que a frondosa jovem ficava algumas horas sem fazer uma boquinha. Quer dizer, ela até fazia uma boquinha muito apreciada pelo marido, mas não engordava. O resultado dessa dieta foram três filhos no intervalo de trinta e cinco meses.
Quando Kelson, Kingson, e Kelly Alessandra estavam com cinco, quatro e três anos respectivamente, a família ganhou um presente peludo e sonolento. Escúbi, homenagem ao desenho animado quase homônimo. Armênio não sabia da surpresa. Ao chegar em casa, esboçou reação. Falou em devolver o presente, Kelly Alessandra abriu o berreiro, Kingson fez pirraça e não quis jantar, Kingson ameaçou denunciá-lo ao Maurinho A.R.15, chefe do tráfico da Boca do Mato. Armênio, que nunca foi admirador de saunas, não queria relaxar no micro-ondas da comunidade. A saída foi entubar e adotar Escúbi como caçula.
Armênio tentou ignorar a existência do filhote. Jurou não se envolver com o trato do bicho, deixou claro que não ia se preocupar com ração, com casinha e muito menos com cocô. E definiu que o Escúbi moraria lá fora. E foi se deitar.
Faltou combinar tudo com o cachorro, que não entendeu nada quando as luzes da casa se apagaram e ele ficou no breu do quintal. Começou a choramingar baixinho. E foi aumentando o volume para sensibilizar alguém. O sono de Conceição é tão pesado quanto a própria, ela bate na cama e logo se torna um peso morto. Armênio tentava fingir que nada ouvia. Impossível, o cãozinho gania como um porco em véspera de feijoada. Kingson se levantou e bateu na porta do casal. A contragosto Armênio tomou providência. Foi para o quintal calar o mamífero. Não do jeito que ele queria que fosse com um teco de escopeta.
- Shh! Cala boca, Escúbi! Vai acordar todo mundo.
O bicho entendeu que ele tinha saído para brincar. Pulava, lambia, se enroscava nas pernas do sujeito. Armênio então resolveu se abaixar e ficar quietinho ao lado do bicho. A estratégia funcionou. Escúbi, mais calmo, silenciou-se. O quintal ficou em paz. E ele caiu no sono. Ele, o Armênio. Passou a noite esparramada sobre os jornais velhos. Escúbi aproveitou a porta aberta e foi dormir lá dentro, no quarto do casal, mais precisamente na cama. Conceição, pela manhã, estranhou a troca, mas não chegou a achar desvantajosa. Escúbi pelo menos não ronca.
As crianças adoravam correr atrás do bichinho. A mãe estava satisfeita com Escúbi, que distraía aquelas pestes enquanto ela se dedicava aos afazeres. Armênio que ficava a maior parte do tempo na rua, só via problemas.
- Ué, todo mundo jantando bife e só eu comendo ovo? Que história é essa?
- É que o Escúbi comeu o seu bife, papai.
- O quê?! Que cachorro abusado! Será possível! Esse bicho nem é meu e eu quem fico sem comida! – Armênio se dirige ao bicho: - Escúbi, tua comida é essa aqui, entendeu! – e mostra-lhe a tigela com ração. Escúbi não se comove. – Essa que é a tua. Come, anda. Tá gostoso, hummm, que delícia, cãozinho, vem comer vem... – mexe na ração, enfia a cara na cuia para ensinar o animal, que olha de longe, desconfiado. – Vem comer, vem, Escúbi. Olha só que delícia...
Kelson interrompe a lição.
- Papai, se o senhor tá gostando tanto, por que o Escúbi não pode ficar com o seu bife?
Armênio percebeu que estava perdendo a autoridade no lar.
Os móveis roídos, a despesa com vacina, ração e veterinário, o latido esganiçado estavam levando o sujeito ao desatino. Mas nada se comparava à cocozada espalhada por todo canto. A divisão de bens era evidente: os 8filhos eram os donos do cachorro e ele era o dono dos cocôs do Escúbi.
Foi quando Armênio mandou a Conceição contratar um adestrador. Era a única solução. Alguém tem que educar o bicho. Levou um susto ao saber o preço as aulas.
- Tudo isso? Pra ensinar um cachorro? E o que esse bicho vai aprender? Latir em inglês?
- Ô meu amor, não fica nervoso. – contemporizava Conceição. – É que o Valdir é o melhor adestrador que tem por aqui. E nem é tão caro assim, vai.
- Olha Conceição, eu pago até um pouco mais que isso. Mas esse Valdir tem que ensinar esse bicho a lavar e passar pra fora. Assim ele ajuda nas despesas da casa.
O adestrador foi mantido e o comportamento do cãozinho mudou. Passou a fazer as necessidades no lugar certo, parou de comer o bife do Armênio, não roeu mais os móveis, nem entrou mais em casa. Sentava, deitava, dava a patinha. Ficou um encanto e nem assim conquistou a simpatia do pai.
A família decidiu que quem deveria ser adestrado era o Armênio. Semana que vem Valdir começa a dar uns passeios com ele.Hélio de La Peña. Direitos reservados.

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